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2006 |
UM JORNALISTA ENTRE AROMAS,
TEMPEROS E SABORES
Edson Di Fonzo atravessou a rua e chegou à calçada da via Francisco Leitão, em Pinheiros, em direção ao número 16. Assim que um de seus funcionários abriu-lhe a porta, ele posou os pés no estabelecimento que mantém desde o ano passado.
De imediato, foi cumprimentado pelos garçons e pelo maitre, o qual discretamente direcionou algum comentário em seus ouvidos. Provavelmente, o motivo de sua curiosidade fosse a presença da nossa equipe de reportagem, posicionada em mesa de destaque do recinto.
Depois de esclarecida a possível dúvida, Edson se apresentou, juntou-se a nós e contou um pouco da sua vida de jornalista e cozinheiro "e não cheff", como ele mesmo classifica. "Cheff é quem trabalha e vive disso. Eu não faço isso", afirma.

Nosso entrevistado, com passagens em grandes veículos de comunicação como as Rádios Joven Pan e JB, além dos periódicos Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, DCI e Diário do Grande ABC, abandonou as redações em 89. Não para montar um restaurante, mas sim uma empresa de comunicação própria, chamada Di Fonzo Comunicação - "porquê, ao final de muitos anos de trabalho, o único capital que você vai ter é seu nome; isso se for bem trabalhado", comenta.
Mas foi um pouco antes, ainda na década de 70, que Di Fonzo deixou seus dotes culinários abrocharem. "Logo que entrei na rádio Joven Pan, eu tinha me separado, vivia sozinho e tinha apenas duas opções: cozinhar ou gastar o que sobrava do salário comendo fora. Não tive dúvida!", brinca.
Naquela época, a oferta de revistas especializadas no assunto era escassa. As receitas seguidas e muitas vezes copiadas de revistas femininas resultavam em "boas comidas e incomíveis comidas", lembra. Para o curioso cozinheiro, mais constrangedor que não alcançar a perfeição em um prato era procurar escondido novas receitas em revistas voltadas para mulheres. "Imagina eu, naquela época, vasculhando essas coisas!", propõe.
A vontade de tentar novas versões para os pratos partiu de uma máxima de Di Fonzo: "Todo seguidor de receitas que é jornalista acaba sendo também um criador". E porque não dizer um descobridor. Afinal, o jornalista percebeu e aprendeu uma coisa muito importante: "Que as mulheres gostam de homens que cozinhavam pra elas. Daí, passei a resolver outro grande problema: Eu não precisava gastar muito dinheiro em um jantar! Além de charmoso, cozinhar também é mais barato", explica o cozinheiro com um sorriso no rosto rebatendo, em seus óculos, a luz da vela posicionada na porta de entrada do restaurante.

Ele também confessa que, na conquista de sua atual companheira, utilizou uma arma potente, repleta de sabor, aroma e temperos. "Um dos primeiros pratos que fiz para o público feminino foi um filet à inglesa. Lembro que eu usava um filet mignon frito na manteiga e aspargos com ervilhas pra acompanhar. Elas adoravam".
Até hoje, o cozinheiro-jornalista agrada muito mais o gosto feminino ao masculino. Ele considera a característica "leve e aromática" de suas receitas a principal explicação para este fenômeno.
Mas não só de mulheres era e é feita sua clientela. Di Fonzo recorda que virou hábito promover jantares para 20 pessoas ou mais em sua casa. "Daí eu comecei a conhecer pessoas, a receber outras que levavam mais outras...e a coisa foi crescendo e acontecendo".
Mas foi no início dos anos 90 que sua carreira como cozinheiro realmente despontou. "Resolvi montar, em São Sebastião, um restaurante. Ia ser mais divertido porque eu poderia encontrar amigos, cozinhar... mal sabia eu que estava entrando num mundo completamente".
Anos mais tarde, Di Fonzo decidiu fechar as portas do estabelecimento porque ele tinha deixado de ser prazeroso e divertido de levar como no início. "É diferente cozinhar pras pessoas que vinham pagar pela sua comida. Vira negócio".
Em uma nova fase de sua vida, depois de por viajar quase todo mundo em busca de mais conhecimentos e aprimoramentos culinários, além do sucesso em vários jantares entre amigos, o cozinheiro decidiu montar seu segundo empreendimento.
"Quis escolher bem o local, decorar com calma para só depois abri-lo", lembra.
Maria Isabel, sua filha caçula, empresa o nome, a beleza e parte da personalidade ao negócio do pai. Na capa dos cardápios do "La Marie", a foto da pequena, "irrequieta" e feliz menina de quatro anos serve de adorno às peças e completa a decoração do ambiente.
Com cabalísticos 19 pratos, como ele mesmo os descreve, Di Fonzo tem uma clientela fiel e selecionada. "Aqui priorizamos o exepcional atendimento, o paladar, o aroma e a apresentação da comida. Tudo é feito com um carinho especial".
Prova disso é o café. Mesmo aparentando ser um pedido simples, no La Marie a bebida é servida com trufas que vêm a mesa dentro de um recipiente que, charmosamente, emana fumaça. "Aqui, tudo tem um toque diferente".
Um dos destaques do menu é Polvo Mediterrâneo, cozido e mergulhado no azeite com ervas e batatas bolinha dourada. Além do cardápio tradicional existe sempre uma sugestão do dia que varia entre Magret de Canard, Polenta e outras opções.
A cozinha é aberta e a decoração aconchegante. Os clientes são recebidos com uma taça de espumante e pedidos especiais são atendidos sempre que possível.
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